Por Clarissa Barreto*

Não existe reportagem sem pessoas, sejam elas uma grávida que espera o primeiro filho, alguém que investe na caderneta de poupança, um marido que troca a mulher pelo futebol durante a Copa do Mundo.
E se o personagem necessário for um “idoso que curte a Lady Gaga” – um pedido real? Ou pior: se em vez de um personagem, você precisa mesmo é falar com um político ou dirigente de uma grande empresa e não tem o telefone dele?
Para – quase – tudo há um jeito a dar. Confira algumas ideias:
- Busque em seu próprio arquivo. Não apague os releases que receber, mesmo os que pareçam estapafúrdios. Arquive todos em uma conta de e-mail gratuita, como o Gmail. Mande os telefones e e-mails que for conseguindo amealhar ao longo do tempo para este e-mail, com palavras-chave. Assim, no dia em que precisar, será bem fácil encontrá-los em uma busca simples.
- Espalhe seu pedido pela internet. Mande e-mails para amigos e assessores de imprensa, não se envergonhe do seu spam – neste caso, quanto mais pessoas souberem do que você precisa, maiores as chances de conseguir. No Twitter, há o perfil @ajudeumreporter, que leva seu drama a 4 mil timelines diferentes, cujos perfis podem retuitar, sucessivamente… As possibilidades são infinitas. Também dá para deixar pedidos em comunidades no Orkut e grupos no Facebook que sejam relacionados à pauta – precisa de alguém que morou na Austrália? Algo me diz que você pode encontrar seu personagem na comunidade “Eu já morei na Austrália”.
- Porém, nem só de internet vive o repórter. Procure lugares relacionados com a sua pauta. Há poucos dias, um colega precisava de um personagem bem específico: uma família que ganhasse pouco e estivesse bem endividada. Parecia fácil. Ele mandou um mail para amigos e conhecidos, que não indicaram ou não conheciam – pouca gente admite estar endividada ou quer indicar alguém nesta situação. A reportagem – para um jornal diário – era para o mesmo dia, e o tempo estava passando. Sugeri uma visitinha ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Quem vai lá, certamente está endividado. Além disso, uma conversa olho no olho normalmente rende uma história melhor, quebra o gelo e torna a entrevista mais interessante. Funcionou para ele.
- Seu personagem não é um personagem qualquer. É uma fonte com F maiúsculo: o presidente de uma grande empresa, dirigente de entidade, um político que não está em campanha (se estivesse, aí seria bem fácil). Como achar esta gente? Você já tentou os meios ortodoxos – assessoria de imprensa, o marketing, a secretária e – claro – e-mail e twitter para seus amigos jornalistas, mas nada feito. A primeira ideia é cercá-lo via fontes próximas, um dos diretores, um outro deputado do mesmo partido. Se não funcionar, a dica é tentar a boa e velha lista telefônica. Há uma chance de o nome dele estar lá, com o telefone residencial. Se ele for um espertinho, o telefone está, mas o nome dele não – o número pode estar em nome da mulher, de um filho ou coisa parecida. Se ele tiver um sobrenome diferente, vale fazer uma busca só por ele – aparecerão apenas parentes, que podem ingenuamente indicar o contato. Há também a hipótese de se plantar na frente da residência ou da empresa e esperar. Mas é uma possibilidade arriscada, que pode não dar em nada – ou dar na delegacia.
Veja os depoimentos de dois jornalistas que convivem diariamente com a busca de personagens e como eles preferem trabalhar.
“Adoro catar personagem na rua. Exceto em casos muito específicos, acho muito melhor do que ficar buscando dicas de amigos ou por telefone. Assim, se preciso de alguém para mostrar que a classe C está comprando mais eletrodomésticos, me mando para a casas Bahia, Colombo ou outra loja que me franquear acesso. Se nenhuma liberar, fico na rua, no centro da cidade, em frente aos shoppings. É preciso trabalhar o sorriso na aproximação, escancarar o crachá, porque hoje as pessoas sempre acha que é um golpe, mas, mesmo assim, dá uma certa adrenalina e uma sensação de que a gente ‘realmente está trabalhando, lutando para obter a história’”.
Sebastião Ribeiro, jornalista free-lancer, sócio da Cartola – Agência de Conteúdo.
“Coisa que eu odeio é achar personagens com um perfil definido. Mas em 2004, na Coreia do Sul, eu tinha uma tarefa dessas e estava tranquilo porque achei que seria muito fácil: encontrar um jovem que usasse celular pra saber o que ele fazia com o telefone – na época, celulares cheios de funções eram comuns por lá e os nossos estavam anos atrasados. Fui num shopping em Seul crente que teria a minha história logo, e comecei a abordar adolescentes em inglês. Para meu pavor, ninguém falava o suficiente para desenvolver qualquer ideia. Enquanto o conceito de que na Coreia todo mundo fala inglês evaporava, eu ia ficando sem alternativas. Faltando meia hora, três guris de uns 12 ou 13 anos, uniformizados e com cadernos de escola, vieram falar comigo, em um inglês muito bom:
- Posso falar inglês com o senhor? – perguntou um deles.
- Vocês têm celular? – perguntei de volta.
Tinham recebido como tema de casa ir para a rua e falar inglês com alguém. Como tinham celular, eu tive minha entrevista. E até hoje adoro o sistema educacional coreano.”
Rodrigo Muzell, repórter do jornal Zero Hora.
Você também deve ter seus truques ou histórias. Divida com a gente.
*Jornalista free-lancer, colabora com as revistas Superinteressante, Piauí, jornal O Globo, portal UOL. É sócia da Cartola – Agência de Conteúdo (http://www.cartolaconteudo.com.br/).