Por Eliane Brum*
Nossa grande busca na reportagem, assim como na vida, é nos tornarmos cada vez mais aquilo que somos. Esta é a busca que nunca acaba, a busca de uma vida inteira. Olhar para dentro e perseguir nosso jeito singular de enxergar o mundo exige coragem, porque é mais fácil imitar e repetir – do que questionar e tentar. Quem tenta, sempre se arrisca a errar – e vai errar, cedo ou tarde. Mas sempre acreditei que é melhor cometer nossos próprios erros do que o acerto dos outros.
Aprendemos com quem fez e faz, com profundo respeito e humildade, mas é necessário encontrar a nossa expressão no mundo, a nossa contribuição única e intransferível. O concurso da CNN é uma oportunidade para este exercício, o exercício de olhar para ver – o exercício do seu olhar. Nele, tão importante quanto a escolha da história que você vai contar é como vai contar essa história. Porque uma história só se torna uma história quando você, que a conta, está encarnado nela, ainda que pela delicadeza.
Acredito que nosso olhar, quando verdadeiro, transforma o mundo para melhor. Transforma porque quando exercemos nosso olhar com verdade, fúria e delicadeza, ele revela aquilo que estava ali, diante de todos, mas ninguém tinha visto daquele jeito, por aquele ângulo, com aquela soma de nuances.
Ao contrário de alguns colegas, de alguns professores e de alguns estudantes do curso de jornalismo, acho que vivemos um grande momento para a reportagem, grávido de possibilidades. Não acho que exercer a profissão hoje seja mais fácil ou mais difícil que em outros momentos históricos. É diferente, apenas. Cada época contém seus desafios e suas idiossincrasias. (Convém lembrar que era bem mais arriscado exercer a profissão com verdade na época da ditadura militar, como a memória de Vladimir Herzog nos prova. Assim como deve ser bem mais complicado ser repórter hoje no Irã do que no Brasil, por exemplo.)
Repórter tem de saber que a vida não é fácil – nunca foi – e que seu espaço tem de ser conquistado – e não ganho – com competência, caráter e trabalho duro. A reportagem exige coragem de cada um de nós. É o preço pela honra de entrar na casa das pessoas e contar suas histórias, pelo privilégio de sermos testemunhas do nosso tempo. Quando a gente está estreando nessa vida, é preciso resistir aos muitos que dizem que não vale a pena seguir em frente. Poucas coisas são mais tristes que desistir antes da vida.
A novidade de nossa época é a internet. E acredito que a internet trouxe muitas possibilidades para quem ama a reportagem. Cada vez mais a notícia de última hora, a corrida pela informação instantânea, é da internet. Tudo que se limita ao anúncio de um fato envelhece em segundos. Nossa atuação como repórteres, seja de meio impresso, TV, rádio ou mesmo de outros espaços da internet, vai exigir aquilo que é – e sempre foi – a definição da boa reportagem: riqueza de detalhes, rigor e precisão da apuração, capacidade de análise e reflexão, profundidade e contexto, nuances, muitas nuances, assim como a habilidade de navegar na zona cinzenta que é o território do jornalismo.
E personalidade. Me parece que cada vez mais a diferença se dará na forma como contamos o que contamos. Só fará diferença quem conseguir revelar aquilo que já é de cada um, mas que desvelar exige muito trabalho, esforço e conhecimento (do mundo e de si mesmo): o olhar singular. Aquele que, se você deixar de exercitar, fará falta. Este é, ao mesmo tempo, o desafio e a oportunidade desse concurso.
Estou ansiosa para conhecer as histórias que vocês vão contar – do jeito que só vocês podem contar. Até lá, boa sorte na melhor profissão do mundo!
*Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem.
