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A anatomia de uma reportagem premiada

postado por Concurso CNN em 26 de abril de 2010

Por Letícia Duarte*

(Advertência: estas linhas iniciais são só um “nariz de cera”: quem quiser pode pular e ir direto ao ponto, no texto abaixo)

Escrever em primeira pessoa é um negócio complicado para nós, jornalistas.

A gente aprende desde a faculdade que o “eu” não existe, que o repórter só tem de relatar os fatos, da forma mais objetiva possível, sem interferir na realidade.
E este princípio do assassinato do eu fica tão incrustado na gente que, mesmo quando não se está escrevendo uma reportagem, parece meio pecaminoso colocar uma experiência pessoal em primeiro plano.

Bom, todo esse “nariz de cera” (aquela enrolação que vem antes do assunto propriamente dito em uma reportagem!) é pra dizer que deparei com esse dilema ao escrever este post.
Queria contar uma experiência pessoal, por achar que ela poderia ser útil pra vocês, que estão se preparando para o Concurso Universitáriode Jornalismo CNN, mas ao mesmo tempo pensava: “Ih, vai parecer que tô me achando”. Pois bem. Doeu um pouco, mas pari o eu. Fecha parênteses.

***

Imaginem a seguinte situação: uma estudante de jornalismo do interior do Rio Grande do Sul faz uma matéria sobre prostituição juvenil para um jornal de sua cidade. Quatro meses depois, recebe a notícia de que essa reportagem foi indicada ao prêmio Esso de Jornalismo (naquele tempo ainda não existia o Concurso Universitáriode Jornalismo CNN!). Quando ela confere a lista dos finalistas, constata que está concorrendo com dois dos repórteres mais tarimbados do maior jornal do seu Estado (Nilson Mariano e Diogo Olivier, do jornal Zero Hora). E, quando chega o dia da solenidade, no Rio de Janeiro, tchan, tchan, tchan: a pirralha que ainda não havia se formado fica estática na cadeira, sem acreditar quando anunciam que ela deveria subir ao palco. O canhão de luz se volta para o seu rosto e ela ali, chocada, pensando: “como assim, ganhei?”

Parece inverossímil, eu sei, mas aos 22 anos vivi essa espécie de… exceção estatística (ora, ora, desde quando jornalismo tem conto de fadas?). Em 2002, dois meses antes de concluir a faculdade na Universidade de Caxias do Sul, na Serra gaúcha, recebi pela série de reportagens Adolescência Prostituída um dos prêmios mais tradicionais do país, na categoria Regional Sul. Na época, trabalhava como repórter no jornal Pioneiro, com o chamado registro profissional “precário”, autorizado pela Justiça na época.

Custei a acreditar que não tinham errado o nome quando me chamaram para subir ao palco, diante de uma plateia composta por alguns dos jornalistas que eu mais admirava no país, mas essa conquista inesperada se revelou para mim um exemplo extremo de como as boas histórias são imensamente maiores do que a inexperiência de quem as abraça – e, também, do tamanho dos veículos onde são publicadas. Moral da história: a pauta vale por si, independente se acontece em Washington, em Berlim, em São Paulo, ou numa cidade de 400 mil habitantes como a que eu nasci.

Pensei que seria interessante compartilhar essa experiência porque talvez vocês também subestimem, como eu subestimava, o poder das pautas que esbarram no nosso caminho – e nossa a própria capacidade pessoal em realizá-las. Acredito que um dos méritos da série Adolescência Prostituída tenha sido revelar um problema social comum a todas as cidades a partir de um ângulo diferenciado. Sim, porque muitos jornais já tinham publicado matérias sobre o assunto. Só que, às vezes, a pauta parece tão óbvia que se gente se esquece a riqueza dela.

O curioso é que a ideia surgiu a partir de uma dica de um professor da faculdade. No meio das discussões de uma revista universitária, ele comentou: “olha só, ouvi falar que agora têm meninas fazendo programa por R$ 1,99″. Na época, a revista da faculdade chegou a explorar o tema, mas não conseguiu comprovar o fato. Então propus aos meus editores do Pioneiro, onde eu trabalhava há cerca de um ano como repórter, que a gente investisse no assunto. Eles toparam e eu comecei a percorrer a cidade atrás das meninas. Passei mais de um mês espiando as esquinas, as praças, as beiras de estradas, em Caxias e outras cidades vizinhas, como Farroupilha e Bento Gonçalves. Pegava um carro sem logotipo, parava, descia e me aproximava das adolescentes. Propunha um jogo aberto: me apresentava como repórter e pedia que elas me contassem suas histórias, garantindo que elas não seriam identificadas. Perdi a conta de quantas vezes voltei para a redação frustrada: era difícil encontrá-las porque elas mudavam de lugar frequentemente, ou então fugiam quando eu me aproximava, mentiam, dissimulavam.

Mas, como repórter sem persistência também é repórter sem pauta, insisti. Recorri ao Conselho Tutelar, à Delegacia para a Criança e ao Adolescente Vítimas, às clínicas de desintoxicação de drogas onde parte das meninas tentava deixar o vício que as acorrentava à prostituição. E valeu a pena. Ao final da apuração, consegui descobrir muito mais do que eu imaginava: que as meninas tinham uma íntima ligação com o crack, uma droga que em 2002 ainda era pouco popular no país, e que seus corpos alimentavam a rede de tráfico da região. Vigiadas por traficantes, entregavam a eles os trocados que ganhavam. Com ajuda de conselheiros tutelares, encontrei a família de uma menina que andava com uma plaquinha, vendendo seu corpo por R$ 1,99. A essa altura, a liquidação se revelou mera consequência de uma degradação mais profunda: aos 19 anos, a jovem já tinha seis filhos – um de cada cliente diferente – e todos contaminados pelo HIV, como ela.

Durante os cinco dias da série, as oito adolescentes retratadas tiveram seus nomes trocados. No último dia, expunha-mos o único nome real: era Viviana, que morreu aos 15 anos. Assassinada. O corpo foi encontrado em um matagal, somente com sutiã, apresentando sinais de espancamento a pauladas. Com o encadeamento das histórias, a série revelou que os corpos à mostra escondiam uma realidade bem mais complexa – que começava pela violência doméstica que as empurrava para fora de casa, passava pela dependência química e ameaçava suas próprias vidas.

Como minhas pernas tremiam, não consegui pensar nisso tudo enquanto me dirigia para receber o prêmio, mas nas horas e horas insones que passei tentando entender como eu havia vencido, cheguei a essa conclusão. Só pode ter sido esse desvelamento – alcançado com uma boa dose de obstinação – que os jurados reconheceram ao premiar a então estudante universitária. Um esforço para escancarar o que as pessoas viam – sem enxergar – entre as esquinas. No caminho até o palco, só consegui articular uma frase e falar ao microfone: “Acredito que o jornalismo tem uma função social muito importante, e estou muito feliz de ter contribuído com a minha reportagem.” Pensando bem, acho que ainda repetiria essa mesma frase hoje, quase oito anos depois.

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Agora chegou a hora da perguntinha cretina: e você, já sabe o que fará para revelar a sua cidade e o seu talento?

*Letícia Duarte (@leticiaduarte), 29 anos, repórter da editoria de Geral de Zero Hora, conquistou o prêmios como o Esso de Jornalismo (2002), o Prêmio Iberoamericano pelos Direitos da Infância e da Adolescência da Unicef (2005) e o Embratel (2007), além de integrar o livro 45 Reportagens que Fizeram História, publicado por Zero Hora em 2008.

Confira outro post de Letícia Duarte.

De profissional a estagiária da CNN

postado por Concurso CNN em 9 de abril de 2010

Por Marlise Brenol*

Dia 11 de setembro de 2001 foi um dia marcante na minha vida de jornalista recém-formada. Estava em casa ouvindo rádio quando a notícia do ataque às torres gêmeas do World Trade Center em Nova York foi disparada. Atônita, liguei a televisão para comprovar com meus próprios olhos aquilo que a narração da rádio tentava me descrever. Entre uma entrevista e uma narração, a CNN Internacional reprisava a imagem das torres sendo atingidas por aviões como dois pinos de boliche derrubados por uma bola. Naquele instante entendi por que a maior rede de notícias dos Estados Unidos é a Meca do jornalismo.

É para lá que jornalistas e espectadores recorrem quando fatos internacionais se impõem porque a empresa é uma referência em transmissão ao vivo, produção de conteúdo em vídeo e inovação em jornalismo. Um ano e dois meses depois deste episódio, eu ganhei a minha chance de peregrinar à sede da CNN em Atlanta. Assim como os muçulmanos devem ir pelo menos uma vez na vida à cidade sagrada na Arábia Saudita, acredito que jornalistas devem ter como meta conhecer uma grande rede de televisão como a CNN.

Quatro anos depois de formada, deixei o trabalho de repórter de televisão em um canal da região sul do Brasil e retrocedi ao cargo de estagiária, mas com muita honra e alegria. O Canal Futura e a Turner Broadcast tinham uma parceria para cedência de conteúdos. Eu trabalhei como intermediária entre as pautas de programas como Jornal Futura e Sala de Notícias e os arquivos de vídeos de Atlanta. Perdi a conta de quantas reportagens do médico-repórter Sanjay Gupta eu selecionei e enviei ao Brasil. Saúde era um assunto muito abordado no Futura.

Como o trabalho era simples e não muito volumoso, me interessei por atividades “turísticas” no CNN Center. Um tipo de viagem que só quem é apaixonado por jornalismo teria prazer em fazer. O prédio da CNN é gigante, dividido entre Torre Norte e Torre Sul. Na Sul ficavam CNN Internacional, CNN en Espanhol, TNT, TBS, CnnRadios, HBOSports, a administração e muito mais. Na Torre Norte, CNN Headlines, CNN USA, cnn.com, Cnn Airport Network, CNN Fn, Turner Learning entre outros. Com meu crachá de funcionária, tinha passe livre para todo esse paraíso jornalístico.

Integrei um programa chamado Shadow, em que os novatos na empresa têm a chance de acompanhar um dia dos profissionais. Uma das pessoas que mais me marcou pela simpatia e pelo trabalho foi a âncora da CNN em espanhol, Glenda Umana. Com ela participei de um turno de trabalho: reuniões de pauta, espelho de notícias, elaboração de notas. E assisti de camarote às entradas ao vivo de hora em hora.

Outro dia fui apresentada ao setor Feeds, algo como central de vídeos que recebe geração de material das sucursais. De cara me colocaram para monitorar matérias de Nova York. Era receber, digitalizar e salvar no diretório público para todos os colegas terem acesso. O mais difícil foi avisar para toda a redação da CNN Doméstica (editoria nacional) que as imagens brutas estavam na mão, porque eu precisei pegar o microfone e descrever. Não lembro sobre o que era o material, mas não esqueço a adrenalina que senti segundos antes de apertar aquele botão e falar. Eu também não perdia nenhum dos programas de auditório que aconteciam no térreo do prédio. Até porque minha chefe americana sempre me escalava a pedido da produção dos programas que precisavam preencher as cadeiras.

Minha experiência durou seis meses e foi uma época da minha vida em que tudo era motivo para descobertas e encantamentos. Hoje, sete anos depois, enxergo o quanto a ida à Meca do jornalismo me fez encontrar uma resposta definitiva às minhas dúvidas quanto ao futuro. Por que eu quero ser jornalista? Porque venero essa religião.

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Marlise Brenol* é jornalista e mestre em Comunicação e Informação. Trabalhou em televisão, assessoria de imprensa e hoje é editora do site de Zero Hora, jornal do grupo RBS no Rio Grande do Sul.

Um recado do editor sênior da CNN para América Latina

postado por Concurso CNN em 7 de abril de 2010

No Brasil para o lançamento da edição 2010 do Concurso Universitário de Jornalismo CNN, o editor sênior para a América Latina da CNN WorldWide gravou com exclusividade para o blog do concurso um recado para quem está pensando em participar.

Em seu discurso, o mexicano Rafael Romo lembrou que, no início de sua vida profissional no Arizona, participou de um concurso de jornalismo parecido. “Foi uma grande oportunidade”, disse.

Confira os 3 conselhos de Romo para você:


A cidade, as pautas e o repórter: treine seu olhar

postado por Concurso CNN em 6 de abril de 2010

Por *Letícia Duarte

Temos um colega na redação de Zero Hora que é considerado uma lenda. Não só porque ele é um dos repórteres mais premiados do Sul do Brasil, com mais de 30 prêmios de Jornalismo, ou porque usa suspensórios – embora essas duas características deem uma boa amostra da personalidade única de Carlos Wagner. Mas também porque, do alto de suas quase três décadas de jornalismo, ele continua sendo um dos repórteres mais entusiasmados pela profissão que já empunhou um bloco – tanto que, enquanto a maioria dos jovens colegas chega esfregando os olhos de manhã, a lenda de cabelos brancos costuma avançar pela Editoria de Geral com sua inseparável mateira** a tiracolo antes das 8h e gritar bem alto: “ah, como eu amo esta m…”(piii)!

Lembrei dele quando soube do tema deste ano do concurso universitáro CNN: Minha Cidade, Minha Vida, uma Atitude, já que é do Wagner uma das melhores frases que já ouvi a respeito dessa relação umbilical do jornalismo com o seu entorno – a rua, a cidade, o Estado.

- Jornalista, as faculdades formam. Repórter, tu te formas na estrada – ensina.

Nesta época em que o jornalismo está cada vez mais instantâneo e asséptico, telefônico e internético, um dos maiores riscos que nossa profissão corre é justamente tirar o pé da rua. É perfeitamente possível apurar uma matéria inteira por telefone, pesquisar no Google informações complementares, entrevistar dois ou três especialistas no assunto e fechar a pauta sem dramas. Só que o perfeitamente possível quase nunca é o suficiente – e o suficiente quase sempre beira a mediocridade. A alma da reportagem não pode ser apreendida pela linha telefônica. Ela vive no Olho da Rua, como bem define o título do indispensável livro de Eliane Brum – outro exemplo de devoção à reportagem e uma das juradas deste concurso (se você ainda não leu o livro, se mexe!).

E, para quem deseja realmente cruzar a linha que define um repórter, é preciso é aprender a treinar o olhar. As pautas estão à espreita em todos os cantos, mas para enxergá-las é preciso desvelar o óbvio – tomar aquela atitude a que o tema deste concurso se refere. A grande matéria pode estar naquele menino que dorme na rua da sua casa, naquela gente que madruga na fila dos postos de saúde, na sofreguidão dos congestionamentos do trânsito, dentro de uma sala de aula. Repórteres são contadores de histórias. É preciso ter sensibilidade para encontrá-las. E para contá-las de um jeito que ninguém fez. É o que a gente chama de “sacada”. Como transformar um problema social em uma pauta? É necessário pensar uma forma diferente de abordá-lo, de uma maneira que se torne útil à sociedade. Que revele além do que todo mundo vê.

Um bom começo é aguçar o olhar ao andar pelas ruas. Observe aqueles personagens anônimos que circulam no seu entorno – pessoas são labirintos, por trás delas sempre há histórias a desvendar. Fique atento a movimentações estranhas. Desconfie de tudo e de todos, sempre. Questione discursos prontos, quem fala bonito demais ou promete mágicas geralmente tem algo a esconder. Troque seu caminho rotineiro de vez em quando, ande por ruas diferentes, ou tente buscar ângulos inusitados ao transitar pelos lugares conhecidos. Troque o carro pelo ônibus ou pelo metrô alguns dias da semana. Sinta a energia que pulsa das esquinas. Converse com pessoas que não fazem parte do seu círculo social. Um desconhecido pode revelar uma história surpreendente, ou dar a pista para você chegar até ela. Aprenda a escutar as lições das ruas, em vez de tentar enquadar os fatos em pré-conceitos.

Não existem fórmulas prontas, só perspicácia, sensibilidade e inquietude. A única certeza é que, para descobrir a cidade, é preciso sujar os pés no barro. Encharcar-se de realidade. E assim um repórter vai nascendo: gestado pelos temas que se propõe a confrontar. A cada nova reportagem, um novo parto.

* Letícia Duarte (@leticiaduarte), 29 anos, repórter da editoria de Geral de Zero Hora, conquistou o prêmios como o Esso de Jornalismo (2002), o Prêmio Iberoamericano pelos Direitos da Infância e da Adolescência da Unicef (2005) e o Embratel (2007), além de integrar o livro 45 Reportagens que Fizeram História, publicado por Zero Hora em 2008.

**pra quem não sabe o que é mateira, é aquela espécie de bolsa para carregar a cuia de chimarrão, o mate e a garrafa térmica, popular no Rio Grande do Sul.

Como se forma um bom jornalista

postado por Sara Lira em 28 de março de 2010

Por Sara Lira*

Certa vez Gabriel García Márquez, escritor e jornalista colombiano, afirmou: “A ética não é uma condição ocasional no jornalismo, mas deve acompanhá-lo sempre, como o zumbido acompanha o besouro”. Atualmente um ponto muito discutido no jornalismo é a questão ética. Muitos julgam que o jornalismo contemporâneo é cerceado por interesses privados, de forma que a tentativa de imparcialidade tem sido deixada de lado.

Mas o bom jornalista sabe que, acima de tudo, seu dever de informar não pode ser velado e que ele deve buscar os vários lados da história. É o que afirma a estudante Luana Borges, do 6º período do curso de Comunicação Social da PUC Minas: “o bom jornalista quer saber de tudo. Ele não fica satisfeito enquanto ele não descobre a verdade, enquanto não vê todos os pontos de vista.

Ter sede de verdade é característica principal de um bom jornalista. Querer saber, de fato, o que aconteceu”, declara. Essa busca pela verdade nem sempre é simples, como observa a jornalista Alessandra Mello. Muitas vezes é necessário enfrentar governantes poderosos ou ir contra ao que a maioria afirma. Para tanto, ela cita a frase de Millôr Fernandes: “Jornalismo é oposição, o resto é balcão de secos e molhados”.

Essa sede de verdade é preponderante para qualquer jornalista, uma vez que passar informação é algo sério e que deve ser tratado com cuidado. Alessandra recomenda que o jornalista que quer fazer um trabalho de qualidade deve correr atrás da notícia sem medir esforços, sem ter preguiça, sendo curioso e tendo a “sacada” de perceber o que é mais importante num fato ou numa entrevista. Para ela, é essencial que o repórter tenha a “percepção da notícia”.

Alessandra ainda completa: “O importante é conseguir no meio de tanta informação que você pegou ali e saber, isso aqui é o lead da matéria, isso aqui é a notícia. É atrás disso aqui que eu vou correr”. Além do mais, a Jornalista diz que a leitura é essencial. “Ler jornal, ler blogs, para assim, formar um olhar crítico sobre os fatos”, conclui.

Mas a formação do bom jornalista começa bem antes de sua inserção no mercado de trabalho. O jornalista que se formou deve ter aproveitado ao máximo o que os quatro anos na Universidade lhe proporcionaram e absorvido todo o conhecimento que os professores lhe passaram. “Não depende do mercado. O mercado absorve bem os profissionais que aproveitaram o curso”, certifica Luana.

O Professor do Curso de Comunicação da PUC Minas, Jair Rangel concorda com essa questão: “Tem que se aventurar. O que vai fazer diferença de aluno para aluno é isso: quem se aventura mais, quem se esforça mais, quem leu mais, quem estudou outras coisas mais, quem teve pensamento científico, pensamento aberto, pensamento mais socializador e não meramente tentando reproduzir técnica”, observa.

Aliás, a técnica deve ser atrelada ao conhecimento geral, ao “pensamento socializador”. Jair diz que o jornalista não deve pensar que, apenas por ter um bom texto, ele é um bom profissional. “Tem que ter uma formação eclética, generalista, sem a necessidade de aprofundamento em tudo. Tem que saber escutar os setores onde ele transita e entender a lógica desses discursos todos”, conclui.

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* Estudante de Jornalismo da PUC. Estagiária da Imprensa da Assembleia Legislativa de MG.


Meu DNA é digital

postado por Concurso CNN em 19 de março de 2010

Por Tiago Dória*

Sempre é difícil falar da própria carreira profissional. Nós, jornalistas, somos treinados a não ser protagonistas, a sempre sermos neutros e analisarmos os fatos com o olhar de uma pessoa de fora. Por isso que para muitos é difícil falar de si mesmo.

Para mim, não é diferente. Mas vou tentar contar a vocês dois momentos marcantes da minha carreira profissional, conforme a organização me pediu.

Já trabalhei com mídia impressa, rádio e TV (antes da MTV), mas o meu DNA é digital. Foi em torno do meu blog, que mantenho desde 2003, que construí a minha reputação na área de jornalismo.

Há 7 anos, sem interrupções, faço uma pesquisa diária sobre assuntos ligados às áreas de cultura digital, mídia e tecnologia. Hoje, é um dos principais blogs de mídia, lido por importantes profissionais das áreas de tecnologia e comunicação dentro e fora do Brasil.

Diariamente, escrevo, edito, faço vídeos, opino e analiso as informações e, principalmente, conheço pessoas interessantes e talentosas por meio dele.

Por isso, já que atualmente a minha carreira gravita em torno do blog, achei justo separar dois momentos marcantes que tive relacionados a ele:

O primeiro foi durante o Tsunami na Ásia, em 2004. Logo que as primeiras informações começaram a circular em fóruns de discussão, resolvei fazer um liveblogging da tragédia. Comecei a agregar as informações e a manter um fluxo constante sobre a tragédia, mais ou menos como hoje já é prática comum no jornalismo online.

Durante a cobertura, quando me dei conta, já estava em uma rede internacional de blogs que estavam relatando o Tsunami. A rede foi criada de forma orgânica, sem ninguém dar uma ordem, começamos a trocar informações e fazer links um para o outro. Meu blog foi linkado no verbete da Wikipedia a respeito da tragédia e logo recebeu milhares de visitas e comentários. Pessoas começaram a trocar dados sobre desaparecidos e locais para doar alimentos. Era o único blog em língua portuguesa que estava cobrindo a tragédia.

Eu já tinha essa noção, mas isso, de certa maneira, intensificou mais ainda a ideia sobre o quanto a internet pode ser uma importante fonte de informações para mobilizar e conectar pessoas ao redor de questões importantes. Percebi o quanto o meu trabalho, que começou de forma descompromissada, era importante.

O segundo momento marcante foi ter sido convidado para ser blogueiro oficial da Pop!Tech, que é uma das principais conferências sobre ciência e tecnologia do mundo. Chris Anderson, Robert Metcalfe e Malcolm Gladwell são algumas personalidades sempre presentes.

No caso, atuei como “bridge-blogger”, fazendo uma ponte entre o que era dito nas apresentações e o que estava acontecendo no Brasil. Para mim, foi um experiência muito enriquecedora. Não somente pelo blog ter sido citado no BoingBoing e na Wired, mas por fazer parte dessa comunidade de pensadores que é a Pop!Tech.

Aprendi duas coisas relacionadas à profissão com esses momentos.

Primeiro, no caso do Tsunami, levei a lição de que o jornalista não pode mais trabalhar como se estivesse numa ilha. Ele não usa a rede, ele está em rede. E é mais um nó nessa grande rede de comunicação mediada por computadores.

No caso da Pop!Tech, aprendi que, mais cedo ou tarde, o seu trabalho será reconhecido. Pode parecer que não, mas sempre tem alguém observando o seu trabalho e, às vezes, dos lugares onde você menos espera.

Enfim, sei que é meio difícil falar isso para quem é estudante, ou está começando na carreira, louco para fazer e acontecer. Mas, na área de jornalismo, muitas vezes, o mais importante não é conquistar tudo de uma vez, e sim buscar o equilíbrio, ir devagar, mas sempre e constante. Tenho certeza que, dessa maneira, as conquistas em sua carreira serão bem mais consistentes.

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* O jornalista Tiago Dória está entre os jurados do Concurso CNN deste ano.  Saiba mais sobre ele!

Tiago Dória – Tecnologias, jornalismo e humanismo devem andar juntos

postado por Concurso CNN em 19 de junho de 2009

Chamamos mais um jurado da triagem para escrever um post sobre o tema do Concurso deste ano. Dessa vez quem escreveu foi o Tiago Dória.
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Michael Dertouzos, falecido cientista do MIT, dizia que ainda persistimos num erro: separamos tecnologia e humanismo. Aliás, um dos maiores erros da humanidade já há 300 anos.

Na visão do cientista, computadores ainda são vistos como coisas frias e distantes. Um contraponto ao homem.

No entanto, as tecnologias sempre tiveram um papel chave no desenvolvimento humano. Garfos, facas, a eletricidade, tudo isso é tecnologia.

É quase impossível não associar tecnologia a desenvolvimento social. Na visão de Dertouzos, as tecnologias existem para o bem estar, tornar a vida do homem melhor, para resolver problemas, caso contrário, não existe muita razão delas existirem.

Por isso, acredito que o pensamento de Dertouzos seja um ótimo parâmetro para quem gosta de ver as tecnologias como ferramentas para o desenvolvimento social.

Mas, vamos pensar em exemplos mais recentes, a fim de ajudar a sedimentar a visão humanista desse cientista do MIT, que faleceu em 2001 e escreveu um ótimo livro chamado “A revolução inacabada”, no qual bate na tecla de que o principal objetivo da tão comentada “revolução da informação” é simplificar a vida as pessoas

Um exemplo do uso da tecnologia de comunicação móvel para potencializar o desenvolvimento social a gente vê na África, onde os celulares já são os principais meios de acesso à internet.

Já que é difícil ter acesso a computadores com acesso à banda larga na região, em razão, sobretudo, de entraves financeiros e infra-estrutura precária, programas de combate e prevenção à AIDS são todos calcados no uso do celular para espalhar informações de prevenção.

No meio desses cenários, surgem organizações importantes que são guiadas pelo uso da tecnologia no desenvolvimento social, como a organização Datadyne, que tem projetos no Chile. Ou seja, é a tecnologia a favor do bem estar.

Essa visão de Dertouzos promete ser ratificada cada vez mais hoje em dia, época de contenção mundial, quando justamente a união entre tecnologia e humanismo faz mais sentido. Em tempos de crise, busca-se o mais econômico, o mais prático.

O que faça mais por menos e de forma mais eficiente. É também nessa época que começam a surgir as grandes inovações, as coisas mais simples passam a ter mais valor e o lado mais prático e social das tecnologias fica mais evidente.

O jurado Eduardo Acquarone mandou um texto

postado por Concurso CNN em 15 de junho de 2009

Pedimos para o jurado da triagem, Eduardo Acquarone enviar um texto sobre o tema do Concurso deste ano e ele enviou um bem curto e eficiente. É bem pequeno, mas pense no impacto da tecnologia nos dois exemplos que ele deu. São exemplos reais e que acontecem aos montes no mundo. Se pensarmos que milhares de pessoas entram na internet pela primeira vez a cada dia, que outras milhares têm acesso a inovações tecnológicas que as permitem melhorar serviços, produtos em prol da sociedade tudo fica mais claro.

Segue o texto do Eduardo Acquarone:

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Hoje ouvi uma história muito interessante. Uma amiga passou o fim de semana no Rio e foi à Rocinha ajudar em um projeto social. Num boteco da favela ela conheceu um senhor — uns 60 anos mais ou menos — analfabeto. Agora ele está querendo aprender a ler e escrever. Pra quê? Pra entrar na Internet.

E vejam o que minha amiga me contou: “Enquanto conversávamos ele precisou fazer uma ligação. Para minha surpresa, ele fez a ligação via Skype.”

Quer melhor exemplo de tecnologia usada para desenvolvimento social?

A Sociedade da Tecnologia

postado por Concurso CNN em 9 de junho de 2009

Recebemos o texto abaixo da Ingrid da Silva Pinto. Ela é estudante de direito e escreve no blog http://guiadebolsojuridico.blogspot.com. Achei muito bacana que ela, estudante de Direito, tenha se interessado pelo Concurso CNN e se engajado com a causa a ponto de escrever um texto para compartilhar conosco:

‘O que conhecemos hoje como “a sociedade da tecnologia” já era uma realidade esperada desde a segunda metade da década de 70, quando começou a se desenvolver a chamada “Revolução Telemática” ou Terceira Revolução Industrial. Este é um progresso presumível que gira em torno da integração e comunicação, com o slogan, também, de “informação ao alcance de todos”. O processo aconteceu através dos computadores pessoais, das câmeras de vídeo e foto, webcams, pendrives, zipdrives. São as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação (NTIC).

De fato, se abriu um leque de opções: agora você pode assistir ao noticiário pela internet com o seu notebook de qualquer lugar do mundo, assinar as principais revistas do Brasil pelo celular, fazer vídeos conferências e o advogado pode valer-se do meio eletrônico para acompanhar seus processos; contudo, como se tem usado todas essas informações e recursos disponibilizados?

As conseqüências do uso da tecnologia em excesso trazem consigo o que a própria ciência da informação esclarece: a distinção entre informes de informações e contra-informações, em resumo, meras notícias são diferentes da capacidade crítica de interpretá-las ou, ainda, o que é pior, usá-las sem o discernimento de que poderá conduzir até mesmo à autodestruição (a exemplo de pessoas que exploram o recurso da internet afim de se medicar, acabando por trocar o médico pela informação fácil, nem sempre correta). São doenças, vícios que surgiram em virtude do mau uso dessas novas tecnologias, a citar o stress, perca de senso do tempo, imediatismo, atitudes anti-sociais e tantos outros.

Em contrapartida, ao se tornar a sociedade da tecnologia, garante-se uma maior facilidade e rapidez de acesso à informação, bem como levamos a educação a uma nova dimensão, quantos e quantos cursos são disponíveis hoje à longa distância?

Enfim, apesar de todos os prós e contras de tudo aquilo que é novo, percebe-se que, sabendo limitar essas novas tecnologias, não fazendo, portanto, mau uso, tudo que contribua a esse leque, é e sempre será bem-vindo’.

A formação humanística do jornalista

postado por Concurso CNN em 2 de junho de 2009

Hoje temos mais um post de um convidado, desta vez, do Professor e Coordenador do curso de Comunicação Social – Unipac/Lafaiete, Darlan Santos.

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“Bons tempos aqueles em que jogador de futebol era analfabeto e jornalista, alfabetizado”

A frase, publicada no célebre jornal “O Pasquim”, afora a duvidosa relação entre bom futebol e analfabetismo, leva-nos a uma reflexão essencial: é preciso investir na formação humanística dos estudantes de jornalismo.
A crescente valorização da técnica, em detrimento da discussão embasada, do incentivo à leitura e da prática da escrita, tem trazido sérias conseqüências aos aspirantes à carreira jornalística. O que se observa nas faculdades de comunicação, de maneira geral, é a falta de profundidade intelectual e de capacidade analítica dos estudantes; deficiências que se revelam em textos empobrecidos e no tratamento simplório das notícias, o que, definitivamente, não contribui para o aprimoramento da imprensa brasileira.
Certamente, a modernização dos cursos, a inclusão digital e a ênfase em novas mídias tornam-se essenciais em nossos dias. Entretanto, por mais avançados que sejam os recursos midiáticos, eles não se sustentam isoladamente; precisam ser providos com um discurso consistente. E é aí que entra em cena a formação humanística do jornalista.
Assim como a especialização, a familiarização com os mais avançados recursos tecnológicos e a capacidade de transitar entre as diversas mídias disponíveis no mercado da informação, o jornalista deve adotar, como palavras de ordem, a inquietação, o senso crítico e o embasamento intelectual.
Enfim, a diferença entre um ‘menino de recados’ e o bom jornalista é que o primeiro leva uma mensagem ao seu destinatário, sem questioná-la. Já a diferença entre um ‘menino de recados’ e o mau jornalista, simplesmente não há… Tendo em mente essa distinção – simplista, sem dúvida, mas útil à discussão – jovens que ingressam em uma faculdade de jornalismo devem estar atentos aos caminhos que pretendem trilhar – definindo, assim, em qual das duas situações pretendem se encaixar