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O olhar que é só seu

postado por Concurso CNN em 9 de julho de 2010

Por Eliane Brum*

Nossa grande busca na reportagem, assim como na vida, é nos tornarmos cada vez mais aquilo que somos. Esta é a busca que nunca acaba, a busca de uma vida inteira. Olhar para dentro e perseguir nosso jeito singular de enxergar o mundo exige coragem, porque é mais fácil imitar e repetir – do que questionar e tentar. Quem tenta, sempre se arrisca a errar – e vai errar, cedo ou tarde. Mas sempre acreditei que é melhor cometer nossos próprios erros do que o acerto dos outros.

Aprendemos com quem fez e faz, com profundo respeito e humildade, mas é necessário encontrar a nossa expressão no mundo, a nossa contribuição única e intransferível. O concurso da CNN é uma oportunidade para este exercício, o exercício de olhar para ver – o exercício do seu olhar. Nele, tão importante quanto a escolha da história que você vai contar é como vai contar essa história. Porque uma história só se torna uma história quando você, que a conta, está encarnado nela, ainda que pela delicadeza.

Acredito que nosso olhar, quando verdadeiro, transforma o mundo para melhor. Transforma porque quando exercemos nosso olhar com verdade, fúria e delicadeza, ele revela aquilo que estava ali, diante de todos, mas ninguém tinha visto daquele jeito, por aquele ângulo, com aquela soma de nuances.

Ao contrário de alguns colegas, de alguns professores e de alguns estudantes do curso de jornalismo, acho que vivemos um grande momento para a reportagem, grávido de possibilidades. Não acho que exercer a profissão hoje seja mais fácil ou mais difícil que em outros momentos históricos. É diferente, apenas. Cada época contém seus desafios e suas idiossincrasias. (Convém lembrar que era bem mais arriscado exercer a profissão com verdade na época da ditadura militar, como a memória de Vladimir Herzog nos prova. Assim como deve ser bem mais complicado ser repórter hoje no Irã do que no Brasil, por exemplo.)

Repórter tem de saber que a vida não é fácil – nunca foi – e que seu espaço tem de ser conquistado – e não ganho – com competência, caráter e trabalho duro. A reportagem exige coragem de cada um de nós. É o preço pela honra de entrar na casa das pessoas e contar suas histórias, pelo privilégio de sermos testemunhas do nosso tempo. Quando a gente está estreando nessa vida, é preciso resistir aos muitos que dizem que não vale a pena seguir em frente. Poucas coisas são mais tristes que desistir antes da vida.

A novidade de nossa época é a internet. E acredito que a internet trouxe muitas possibilidades para quem ama a reportagem. Cada vez mais a notícia de última hora, a corrida pela informação instantânea, é da internet. Tudo que se limita ao anúncio de um fato envelhece em segundos. Nossa atuação como repórteres, seja de meio impresso, TV, rádio ou mesmo de outros espaços da internet, vai exigir aquilo que é – e sempre foi – a definição da boa reportagem: riqueza de detalhes, rigor e precisão da apuração, capacidade de análise e reflexão, profundidade e contexto, nuances, muitas nuances, assim como a habilidade de navegar na zona cinzenta que é o território do jornalismo.

E personalidade. Me parece que cada vez mais a diferença se dará na forma como contamos o que contamos. Só fará diferença quem conseguir revelar aquilo que já é de cada um, mas que desvelar exige muito trabalho, esforço e conhecimento (do mundo e de si mesmo): o olhar singular. Aquele que, se você deixar de exercitar, fará falta. Este é, ao mesmo tempo, o desafio e a oportunidade desse concurso.

Estou ansiosa para conhecer as histórias que vocês vão contar – do jeito que só vocês podem contar. Até lá, boa sorte na melhor profissão do mundo!

*Jornalista, escritora e documentarista. Ganhou mais de 40 prêmios nacionais e internacionais de reportagem.

A importância de ser vizinho

postado por Concurso CNN em 4 de junho de 2010

A revista Good Magazine é um exemplo de veículo com boas pautas. Sempre há matérias interessantes nas suas páginas, especialmente no que diz respeito a atitudes que ajudam a mudar o mundo. Não por acaso, seu slogan é “Para pessoas que se importam”. Na edição mais recente, o tema escolhido foi vizinhança, um assunto de extrema importância para qualquer cidade, mas que nem sempre é discutido.

No editorial da revista, uma frase chama bastante atenção: “It seems that while we were becoming citizens of the world, we forgot to be citizens of where we live” (“Parece que, ao nos tornarmos cidadãos do mundo, esquecemos de ser cidadãos de onde vivemos”). Está aí um tema que estimula várias reflexões, por tratar de algo que não nos damos conta no dia a dia. Estamos cada vez mais conectados a pessoas ao redor do planeta, graças aos avanços tecnológicos. Mas e a nossa cidade? Será que nos “conectamos” com ela, com suas pessoas e lugares? Será que exercemos nosso papel de vizinhos, auxiliando a transformar nosso município em um local melhor?

A revista mostra exemplos de iniciativas que deram certo, da criação de espaços para lazer infantil à importância de placas de trânsito claras, passando pela implantação de clubes de vizinhos e incentivos para programas locais de TV. As possibilidades são muitas, desde que haja engajamento dos moradores e dos governantes em botar projetos legais em prática, e as situações descritas na edição mostram que mudar é possível. E que ser vizinho é muito mais do que apenas dividir o elevador com quem mora ao lado.

Leia essas e outras histórias de sucesso no site da revista.

O bom jornalismo

postado por Concurso CNN em 28 de abril de 2010

Por Amanda Camasmie*

Antes de ingressar na faculdade de jornalismo, uma recém-formada no curso me pediu para desistir. “O mercado é muito competitivo”, disse. Os fatos eram comprobatórios: a ex-estudante ainda não havia conquistado uma boa colocação no mercado de trabalho.

Hoje, o cenário não mudou. E talvez nunca mude. Promissores são aqueles que tomam consciência rapidamente do que é fazer jornalismo. Frequentemente, a equipe do blog Manual dos Focas tenta mostrar, por meio de relatos de jovens jornalistas, os desafios enfrentados por quem está iniciando na profissão. São histórias de profissionais que compartilham a crença de que o bom jornalismo busca uma boa reportagem onde menos se espera, ou talvez, até naquela obviedade em que ninguém presta atenção.

Muitos colegas com talento inegável têm tido dificuldades para se estabilizar na profissão. Nessa busca, passam a oferecer frilas a torto e a direito para os mais variados veículos de comunicação.

As respostas às ofertas de pautas têm seguido uma linha muito similar: não queremos sugestões que possam ser pesquisadas pela internet. Precisamos de coisas novas, que só possam ser encontradas nas ruas.

A questão é que essa novidade ainda escondida só pode ser contada por quem se dispõe a pisar no asfalto, no mato, na lama, ou seja lá onde for.

Sob o mote “Minha Cidade, Minha Vida, Uma Atitude”, o concurso da CNN desafia os estudantes a liberarem essa veia investigativa – aquela que passa longe de uma simples pesquisa em um motor de busca. Pessoas motivadas, novas e velhas ações, gente querendo fazer o bem. Todos estão à espera desse bom jornalista.

Descobrir e disseminar boas atitudes pode mudar a vida de muita gente e mostrar qual jornalista você irá querer ser no futuro: aquele que acha que faz a diferença ou aquele que buscará, todos os dias, tornar a diferença uma realidade?

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*Colaboradora do site Manual dos Focas, site direcionado a estudantes de jornalismo. Amanda é repórter em São Paulo.

A anatomia de uma reportagem premiada

postado por Concurso CNN em 26 de abril de 2010

Por Letícia Duarte*

(Advertência: estas linhas iniciais são só um “nariz de cera”: quem quiser pode pular e ir direto ao ponto, no texto abaixo)

Escrever em primeira pessoa é um negócio complicado para nós, jornalistas.

A gente aprende desde a faculdade que o “eu” não existe, que o repórter só tem de relatar os fatos, da forma mais objetiva possível, sem interferir na realidade.
E este princípio do assassinato do eu fica tão incrustado na gente que, mesmo quando não se está escrevendo uma reportagem, parece meio pecaminoso colocar uma experiência pessoal em primeiro plano.

Bom, todo esse “nariz de cera” (aquela enrolação que vem antes do assunto propriamente dito em uma reportagem!) é pra dizer que deparei com esse dilema ao escrever este post.
Queria contar uma experiência pessoal, por achar que ela poderia ser útil pra vocês, que estão se preparando para o Concurso Universitáriode Jornalismo CNN, mas ao mesmo tempo pensava: “Ih, vai parecer que tô me achando”. Pois bem. Doeu um pouco, mas pari o eu. Fecha parênteses.

***

Imaginem a seguinte situação: uma estudante de jornalismo do interior do Rio Grande do Sul faz uma matéria sobre prostituição juvenil para um jornal de sua cidade. Quatro meses depois, recebe a notícia de que essa reportagem foi indicada ao prêmio Esso de Jornalismo (naquele tempo ainda não existia o Concurso Universitáriode Jornalismo CNN!). Quando ela confere a lista dos finalistas, constata que está concorrendo com dois dos repórteres mais tarimbados do maior jornal do seu Estado (Nilson Mariano e Diogo Olivier, do jornal Zero Hora). E, quando chega o dia da solenidade, no Rio de Janeiro, tchan, tchan, tchan: a pirralha que ainda não havia se formado fica estática na cadeira, sem acreditar quando anunciam que ela deveria subir ao palco. O canhão de luz se volta para o seu rosto e ela ali, chocada, pensando: “como assim, ganhei?”

Parece inverossímil, eu sei, mas aos 22 anos vivi essa espécie de… exceção estatística (ora, ora, desde quando jornalismo tem conto de fadas?). Em 2002, dois meses antes de concluir a faculdade na Universidade de Caxias do Sul, na Serra gaúcha, recebi pela série de reportagens Adolescência Prostituída um dos prêmios mais tradicionais do país, na categoria Regional Sul. Na época, trabalhava como repórter no jornal Pioneiro, com o chamado registro profissional “precário”, autorizado pela Justiça na época.

Custei a acreditar que não tinham errado o nome quando me chamaram para subir ao palco, diante de uma plateia composta por alguns dos jornalistas que eu mais admirava no país, mas essa conquista inesperada se revelou para mim um exemplo extremo de como as boas histórias são imensamente maiores do que a inexperiência de quem as abraça – e, também, do tamanho dos veículos onde são publicadas. Moral da história: a pauta vale por si, independente se acontece em Washington, em Berlim, em São Paulo, ou numa cidade de 400 mil habitantes como a que eu nasci.

Pensei que seria interessante compartilhar essa experiência porque talvez vocês também subestimem, como eu subestimava, o poder das pautas que esbarram no nosso caminho – e nossa a própria capacidade pessoal em realizá-las. Acredito que um dos méritos da série Adolescência Prostituída tenha sido revelar um problema social comum a todas as cidades a partir de um ângulo diferenciado. Sim, porque muitos jornais já tinham publicado matérias sobre o assunto. Só que, às vezes, a pauta parece tão óbvia que se gente se esquece a riqueza dela.

O curioso é que a ideia surgiu a partir de uma dica de um professor da faculdade. No meio das discussões de uma revista universitária, ele comentou: “olha só, ouvi falar que agora têm meninas fazendo programa por R$ 1,99″. Na época, a revista da faculdade chegou a explorar o tema, mas não conseguiu comprovar o fato. Então propus aos meus editores do Pioneiro, onde eu trabalhava há cerca de um ano como repórter, que a gente investisse no assunto. Eles toparam e eu comecei a percorrer a cidade atrás das meninas. Passei mais de um mês espiando as esquinas, as praças, as beiras de estradas, em Caxias e outras cidades vizinhas, como Farroupilha e Bento Gonçalves. Pegava um carro sem logotipo, parava, descia e me aproximava das adolescentes. Propunha um jogo aberto: me apresentava como repórter e pedia que elas me contassem suas histórias, garantindo que elas não seriam identificadas. Perdi a conta de quantas vezes voltei para a redação frustrada: era difícil encontrá-las porque elas mudavam de lugar frequentemente, ou então fugiam quando eu me aproximava, mentiam, dissimulavam.

Mas, como repórter sem persistência também é repórter sem pauta, insisti. Recorri ao Conselho Tutelar, à Delegacia para a Criança e ao Adolescente Vítimas, às clínicas de desintoxicação de drogas onde parte das meninas tentava deixar o vício que as acorrentava à prostituição. E valeu a pena. Ao final da apuração, consegui descobrir muito mais do que eu imaginava: que as meninas tinham uma íntima ligação com o crack, uma droga que em 2002 ainda era pouco popular no país, e que seus corpos alimentavam a rede de tráfico da região. Vigiadas por traficantes, entregavam a eles os trocados que ganhavam. Com ajuda de conselheiros tutelares, encontrei a família de uma menina que andava com uma plaquinha, vendendo seu corpo por R$ 1,99. A essa altura, a liquidação se revelou mera consequência de uma degradação mais profunda: aos 19 anos, a jovem já tinha seis filhos – um de cada cliente diferente – e todos contaminados pelo HIV, como ela.

Durante os cinco dias da série, as oito adolescentes retratadas tiveram seus nomes trocados. No último dia, expunha-mos o único nome real: era Viviana, que morreu aos 15 anos. Assassinada. O corpo foi encontrado em um matagal, somente com sutiã, apresentando sinais de espancamento a pauladas. Com o encadeamento das histórias, a série revelou que os corpos à mostra escondiam uma realidade bem mais complexa – que começava pela violência doméstica que as empurrava para fora de casa, passava pela dependência química e ameaçava suas próprias vidas.

Como minhas pernas tremiam, não consegui pensar nisso tudo enquanto me dirigia para receber o prêmio, mas nas horas e horas insones que passei tentando entender como eu havia vencido, cheguei a essa conclusão. Só pode ter sido esse desvelamento – alcançado com uma boa dose de obstinação – que os jurados reconheceram ao premiar a então estudante universitária. Um esforço para escancarar o que as pessoas viam – sem enxergar – entre as esquinas. No caminho até o palco, só consegui articular uma frase e falar ao microfone: “Acredito que o jornalismo tem uma função social muito importante, e estou muito feliz de ter contribuído com a minha reportagem.” Pensando bem, acho que ainda repetiria essa mesma frase hoje, quase oito anos depois.

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Agora chegou a hora da perguntinha cretina: e você, já sabe o que fará para revelar a sua cidade e o seu talento?

*Letícia Duarte (@leticiaduarte), 29 anos, repórter da editoria de Geral de Zero Hora, conquistou o prêmios como o Esso de Jornalismo (2002), o Prêmio Iberoamericano pelos Direitos da Infância e da Adolescência da Unicef (2005) e o Embratel (2007), além de integrar o livro 45 Reportagens que Fizeram História, publicado por Zero Hora em 2008.

Confira outro post de Letícia Duarte.

Jornalismo. Profissão de alto risco…

postado por Concurso CNN em 16 de abril de 2010

*Do jurado Heitor Reali

Para os outros. É isso mesmo. Não estou falando de profissões perigosas, como bombeiros, policiais, mergulhadores e tantas outras. Para estas, na qual se conhece o risco, me atrevo a dizer que o risco fica menor. Refiro-me àquelas que, a partir de um diagnóstico errado, joga você no beleléu ou daquela outra em que uma sentença mal interpretada leva um inocente para a cucuia. E a de maior risco: o jornalismo. Uma informação incorreta, parcial ou dita com incompetência, pode contribuir para o caos, o pânico, gerar intrigas. Pense bem. Até uma simples resenha, crítica de cinema ou teatro, comentário esportivo, ou mesmo a indicação de um lugar turístico mal elaborada, ou que não carrega a verdade, traz prejuízo de todo o tipo.

Ao jornalista de vocação a base está na busca da verdade. Nada lhe parece; ele define, apura as informações e explica. Ele não “acha”, informa. Pode até se posicionar, mas para isso precisa ter conhecimento. Tem o dever de pesquisar e estudar o assunto. Vou até falar um palavrão: perscrutar. Só vale escrever sobre o que se sabe, viu ou sentiu. É necessário viver para narrar. Podem falar o diabo, mas o new journalism não existe nem mesmo para aqueles a quem imputaram sua origem, os americanos Gay Talese e Lilian Ross. E pior: está virando modinha e gerando equívocos. Descarte. A diferença é que Ross e Talese grudaram no assunto e puderam fazer reportagens preciosas, com tal gama de informações que as fazem beirar a ficção. Mas ainda continua prevalecendo a expressão da realidade sobre a imaginação de quem escreveu. Esta deve estar voltada para a forma do que se diz. Deixe de lado outro clichê que está virando praxe nas reportagens, quando pouco apuradas, e que se encaixa na última frase de um filme de John Ford (“O Homem que Matou o Facínora”): quando a lenda tornou-se fato, publique a lenda. Fique esperto.

Não subjugue nunca a inteligência do leitor, do espectador. Esta regra é fundamental para uma boa reportagem. Vejo o jornalismo pela graça e criatividade no olho arguto do repórter, expressas com inteligência e alavancadas pela ética. Com boa dose de imparcialidade. Não seja “torcedor” de nada e de ninguém, pois a palavra é poderosa. Carlos Alberto di Franco escreveu: “não se fazem matérias direito porque a reportagem se tornou tática demais, confiando em emails, telefones e internet. Não é mais cara a cara”. No bastidor, uma das causas é o borderô apertado de revistas e jornais, e é caro sair à na rua, à cata de boas informações.

Pense duas vezes. Tem certeza de que quer ser jornalista? Não dou conselhos, mas posso dar sugestões que me serviram em minha carreira. Os primeiros passos de um repórter se dão pela leitura. Os textos inspiram. Procure ler o assunto que o interessa, mas dê uma olhada nos livros de George Orwell e Italo Calvino. Mas não deixe de ler “A Honra Perdida de Katarina Blum”, de Heinrich Boll. Assista a “A Embriaguez do Sucesso”, obra-prima de Alexander Mackendrick, que pode ser considerada o melhor filme sobre imprensa de todos os tempos. Outro que precisa ser visto é “A Montanha dos Sete Abutres”, de Billy Wilder. Isso sem contar os documentários produzidos pela jornalista Neide Duarte para a TV Cultura. Preste atenção em um deles: “Quase o Peso de um Passarinho”. Como exemplo de bom jornalismo também elejo o “Profissão Repórter”. E é claro que há muitos outros. Você vai descobrindo. Por fim: veja a beleza que brota até no que é mais árido, e não se limite apenas a registrar a tragédia dos excluídos ou de quem quer que seja. Mas não se esqueça: a linha divisória é escorregadia. Por isso, esta profissão maravilhosa é também a de maior risco.

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* Há quinze anos, Heitor trocou a engenhosidade pela criatividade do jornalismo. Compõe a equipe de revistas como Brasileiros, Almanaque Brasil, Planeta, Bons Fluidos, Continental Multicultural, entre outras, também edita cartilhas ambientais. Este ano, ele é um dos jurados do Concurso Universitário de Jornalismo CNN.

Por Clara Vanali*

Há algumas decisões que mudam para sempre o rumo de nossas vidas. Alguns chamam isso de efeito borboleta, outros de destino e os mais descrentes de simples acasos. Em 2008, recebi o anúncio do Concurso Universitário de Jornalismo CNN na minha caixa de e-mail. Estava no último ano de faculdade, preocupada e ocupada com o TCC (Trabalho de Graduação Interdisciplinar) que deveria entregar no final daquele ano. No entanto, ao ver que o tema do concurso era socialização através da arte, lembrei-me rapidamente de um projeto que um amigo tinha comentado comigo há um tempo, em que pessoas construíam instrumentos de maracatu e aprendiam a tocá-los depois.

Decidi ir até o local, uma escola pública, onde acontecia o tal projeto. Cheguei sem câmera, sem papel ou caneta. Apenas curiosa. Sentei-me na arquibancada da quadra e esperei até a apresentação começar. Um som forte saiu do tambor, tornou-se harmônico e se repetiu ainda melhor pelas mãos de centenas de pessoas que tocavam juntas. Eu nunca assistira a algo tão marcante em toda a minha vida. Percebi ali algo tão verdadeiro que de alguma forma eu tinha que contar aquela história para as pessoas, para o mundo. As incertezas sempre vão nos questionar, mas uma lição que aprendi naquele dia é que quando sentimos algo diferente e muito intenso, significa que temos que agir. Voltei dias depois com uma equipe, registrei tudo com uma câmera e o resto da história vocês já conhecem.

O Concurso de Jornalismo Universitário CNN me fez melhor. Participar me fez acreditar ainda mais no jornalismo que eu sempre quis fazer. Mais do que um trabalho, ele é hoje minha vida e para onde eu direciono o meu tempo e as minhas energias. Profissionalmente, a vitória abriu oportunidades de emprego e de envolvimento em projetos jornalísticos que me ensinaram a conhecer ainda mais o nosso mundo de gerador de conteúdo, de debate e aprendizado. Conheci a sede internacional da emissora e estabeleci contatos que mantenho até hoje e pretendo levar por todo o meu caminho. O prêmio me ajudou a ser aprovada no Curso Abril de Jornalismo e me possibilitou uma vaga de repórter na Editora Abril, em São Paulo, onde trabalho hoje com a intenção de conhecer e divulgar histórias ainda mais marcantes como aquela do maracatu.

Um concurso como esse, destinado aos estudantes, faz com que esses sintam ainda mais preparados e com vontade de seguir a profissão que torna público tudo o que o que uma sociedade precisa saber para se transformar todos os dias. Este ano, o tema “Minha Cidade, Minha Vida, Uma Atitude” permite uma experiência ilimitada para os participantes, que podem navegar por assuntos como sustentabilidade, sociabilização, educação, cidadania e tantos outros. É hora de abrir os olhos, de prestar atenção em atitudes que saem do senso comum, que engajam projetos e pessoas em torno de uma mesma intenção: fazer da cidade uma lugar melhor para se viver. Essas ações estão a sua espera para que você, jornalista, as divulgue pelo mundo. Não há outros compromissos que o impeçam de fazer, só depende da sua vontade. Procure novidades e lembre-se de que quando sentir aquele algo a mais, registre. Pegue a câmera e siga em frente. Você já estará participando.

*Clara Vanali, vencedora do Concurso Universitário da CNN de 2008, é jornalista da Editora Abril, em São Paulo, e escreve crônicas em seu blog (www.claravanali.com.br).

Clique e confira a reportagem vencedora de Clara.

De profissional a estagiária da CNN

postado por Concurso CNN em 9 de abril de 2010

Por Marlise Brenol*

Dia 11 de setembro de 2001 foi um dia marcante na minha vida de jornalista recém-formada. Estava em casa ouvindo rádio quando a notícia do ataque às torres gêmeas do World Trade Center em Nova York foi disparada. Atônita, liguei a televisão para comprovar com meus próprios olhos aquilo que a narração da rádio tentava me descrever. Entre uma entrevista e uma narração, a CNN Internacional reprisava a imagem das torres sendo atingidas por aviões como dois pinos de boliche derrubados por uma bola. Naquele instante entendi por que a maior rede de notícias dos Estados Unidos é a Meca do jornalismo.

É para lá que jornalistas e espectadores recorrem quando fatos internacionais se impõem porque a empresa é uma referência em transmissão ao vivo, produção de conteúdo em vídeo e inovação em jornalismo. Um ano e dois meses depois deste episódio, eu ganhei a minha chance de peregrinar à sede da CNN em Atlanta. Assim como os muçulmanos devem ir pelo menos uma vez na vida à cidade sagrada na Arábia Saudita, acredito que jornalistas devem ter como meta conhecer uma grande rede de televisão como a CNN.

Quatro anos depois de formada, deixei o trabalho de repórter de televisão em um canal da região sul do Brasil e retrocedi ao cargo de estagiária, mas com muita honra e alegria. O Canal Futura e a Turner Broadcast tinham uma parceria para cedência de conteúdos. Eu trabalhei como intermediária entre as pautas de programas como Jornal Futura e Sala de Notícias e os arquivos de vídeos de Atlanta. Perdi a conta de quantas reportagens do médico-repórter Sanjay Gupta eu selecionei e enviei ao Brasil. Saúde era um assunto muito abordado no Futura.

Como o trabalho era simples e não muito volumoso, me interessei por atividades “turísticas” no CNN Center. Um tipo de viagem que só quem é apaixonado por jornalismo teria prazer em fazer. O prédio da CNN é gigante, dividido entre Torre Norte e Torre Sul. Na Sul ficavam CNN Internacional, CNN en Espanhol, TNT, TBS, CnnRadios, HBOSports, a administração e muito mais. Na Torre Norte, CNN Headlines, CNN USA, cnn.com, Cnn Airport Network, CNN Fn, Turner Learning entre outros. Com meu crachá de funcionária, tinha passe livre para todo esse paraíso jornalístico.

Integrei um programa chamado Shadow, em que os novatos na empresa têm a chance de acompanhar um dia dos profissionais. Uma das pessoas que mais me marcou pela simpatia e pelo trabalho foi a âncora da CNN em espanhol, Glenda Umana. Com ela participei de um turno de trabalho: reuniões de pauta, espelho de notícias, elaboração de notas. E assisti de camarote às entradas ao vivo de hora em hora.

Outro dia fui apresentada ao setor Feeds, algo como central de vídeos que recebe geração de material das sucursais. De cara me colocaram para monitorar matérias de Nova York. Era receber, digitalizar e salvar no diretório público para todos os colegas terem acesso. O mais difícil foi avisar para toda a redação da CNN Doméstica (editoria nacional) que as imagens brutas estavam na mão, porque eu precisei pegar o microfone e descrever. Não lembro sobre o que era o material, mas não esqueço a adrenalina que senti segundos antes de apertar aquele botão e falar. Eu também não perdia nenhum dos programas de auditório que aconteciam no térreo do prédio. Até porque minha chefe americana sempre me escalava a pedido da produção dos programas que precisavam preencher as cadeiras.

Minha experiência durou seis meses e foi uma época da minha vida em que tudo era motivo para descobertas e encantamentos. Hoje, sete anos depois, enxergo o quanto a ida à Meca do jornalismo me fez encontrar uma resposta definitiva às minhas dúvidas quanto ao futuro. Por que eu quero ser jornalista? Porque venero essa religião.

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Marlise Brenol* é jornalista e mestre em Comunicação e Informação. Trabalhou em televisão, assessoria de imprensa e hoje é editora do site de Zero Hora, jornal do grupo RBS no Rio Grande do Sul.

A cidade, as pautas e o repórter: treine seu olhar

postado por Concurso CNN em 6 de abril de 2010

Por *Letícia Duarte

Temos um colega na redação de Zero Hora que é considerado uma lenda. Não só porque ele é um dos repórteres mais premiados do Sul do Brasil, com mais de 30 prêmios de Jornalismo, ou porque usa suspensórios – embora essas duas características deem uma boa amostra da personalidade única de Carlos Wagner. Mas também porque, do alto de suas quase três décadas de jornalismo, ele continua sendo um dos repórteres mais entusiasmados pela profissão que já empunhou um bloco – tanto que, enquanto a maioria dos jovens colegas chega esfregando os olhos de manhã, a lenda de cabelos brancos costuma avançar pela Editoria de Geral com sua inseparável mateira** a tiracolo antes das 8h e gritar bem alto: “ah, como eu amo esta m…”(piii)!

Lembrei dele quando soube do tema deste ano do concurso universitáro CNN: Minha Cidade, Minha Vida, uma Atitude, já que é do Wagner uma das melhores frases que já ouvi a respeito dessa relação umbilical do jornalismo com o seu entorno – a rua, a cidade, o Estado.

- Jornalista, as faculdades formam. Repórter, tu te formas na estrada – ensina.

Nesta época em que o jornalismo está cada vez mais instantâneo e asséptico, telefônico e internético, um dos maiores riscos que nossa profissão corre é justamente tirar o pé da rua. É perfeitamente possível apurar uma matéria inteira por telefone, pesquisar no Google informações complementares, entrevistar dois ou três especialistas no assunto e fechar a pauta sem dramas. Só que o perfeitamente possível quase nunca é o suficiente – e o suficiente quase sempre beira a mediocridade. A alma da reportagem não pode ser apreendida pela linha telefônica. Ela vive no Olho da Rua, como bem define o título do indispensável livro de Eliane Brum – outro exemplo de devoção à reportagem e uma das juradas deste concurso (se você ainda não leu o livro, se mexe!).

E, para quem deseja realmente cruzar a linha que define um repórter, é preciso é aprender a treinar o olhar. As pautas estão à espreita em todos os cantos, mas para enxergá-las é preciso desvelar o óbvio – tomar aquela atitude a que o tema deste concurso se refere. A grande matéria pode estar naquele menino que dorme na rua da sua casa, naquela gente que madruga na fila dos postos de saúde, na sofreguidão dos congestionamentos do trânsito, dentro de uma sala de aula. Repórteres são contadores de histórias. É preciso ter sensibilidade para encontrá-las. E para contá-las de um jeito que ninguém fez. É o que a gente chama de “sacada”. Como transformar um problema social em uma pauta? É necessário pensar uma forma diferente de abordá-lo, de uma maneira que se torne útil à sociedade. Que revele além do que todo mundo vê.

Um bom começo é aguçar o olhar ao andar pelas ruas. Observe aqueles personagens anônimos que circulam no seu entorno – pessoas são labirintos, por trás delas sempre há histórias a desvendar. Fique atento a movimentações estranhas. Desconfie de tudo e de todos, sempre. Questione discursos prontos, quem fala bonito demais ou promete mágicas geralmente tem algo a esconder. Troque seu caminho rotineiro de vez em quando, ande por ruas diferentes, ou tente buscar ângulos inusitados ao transitar pelos lugares conhecidos. Troque o carro pelo ônibus ou pelo metrô alguns dias da semana. Sinta a energia que pulsa das esquinas. Converse com pessoas que não fazem parte do seu círculo social. Um desconhecido pode revelar uma história surpreendente, ou dar a pista para você chegar até ela. Aprenda a escutar as lições das ruas, em vez de tentar enquadar os fatos em pré-conceitos.

Não existem fórmulas prontas, só perspicácia, sensibilidade e inquietude. A única certeza é que, para descobrir a cidade, é preciso sujar os pés no barro. Encharcar-se de realidade. E assim um repórter vai nascendo: gestado pelos temas que se propõe a confrontar. A cada nova reportagem, um novo parto.

* Letícia Duarte (@leticiaduarte), 29 anos, repórter da editoria de Geral de Zero Hora, conquistou o prêmios como o Esso de Jornalismo (2002), o Prêmio Iberoamericano pelos Direitos da Infância e da Adolescência da Unicef (2005) e o Embratel (2007), além de integrar o livro 45 Reportagens que Fizeram História, publicado por Zero Hora em 2008.

**pra quem não sabe o que é mateira, é aquela espécie de bolsa para carregar a cuia de chimarrão, o mate e a garrafa térmica, popular no Rio Grande do Sul.

Conheça e mostre atitudes da sua cidade ao Brasil

postado por Concurso CNN em 5 de abril de 2010

O que você faria se chegasse às suas mãos a seguinte pauta: “Minha cidade, Minha vida, Uma atitude”?

Saia do conforto da sua “redação” e ande pela cidade com olhar curioso que o jornalista ensaia tanto. Converse com as pessoas, perceba a diversidade de paisagens que a cidade envolve. Leia sempre o jornal local. Discuta sobre os problemas vividos na comunidade da qual você faz parte.

Aos poucos você descobrirá as mudanças e as iniciativas que devem ser reconhecidas.

Lembrando que seu deadline é 9 de julho e você terá centenas de colegas também na busca da melhor matéria prima para este pauta.

Procure pessoas, comunidades ou organizações que façam a diferença na realidade da sua cidade.

Seja trabalhando pelo reaproveitamento de resíduos , plataforma de participação pública, inclusão social, acesso à arte, redução da poluição do meio-ambiente, educação no trânsito, colaboração na educação de jovens e adultos, limpeza das praças ou o que mais fizer a diferença na realidade local de uma cidade. Sua tarefa é mostrar isso para o Brasil.

É uma grande responsabilidade! Mas, como porta-voz, você poderá atrair reconhecimento da sociedade fazendo a atitude se espalhar pelo resto do Brasil.

Como se forma um bom jornalista

postado por Sara Lira em 28 de março de 2010

Por Sara Lira*

Certa vez Gabriel García Márquez, escritor e jornalista colombiano, afirmou: “A ética não é uma condição ocasional no jornalismo, mas deve acompanhá-lo sempre, como o zumbido acompanha o besouro”. Atualmente um ponto muito discutido no jornalismo é a questão ética. Muitos julgam que o jornalismo contemporâneo é cerceado por interesses privados, de forma que a tentativa de imparcialidade tem sido deixada de lado.

Mas o bom jornalista sabe que, acima de tudo, seu dever de informar não pode ser velado e que ele deve buscar os vários lados da história. É o que afirma a estudante Luana Borges, do 6º período do curso de Comunicação Social da PUC Minas: “o bom jornalista quer saber de tudo. Ele não fica satisfeito enquanto ele não descobre a verdade, enquanto não vê todos os pontos de vista.

Ter sede de verdade é característica principal de um bom jornalista. Querer saber, de fato, o que aconteceu”, declara. Essa busca pela verdade nem sempre é simples, como observa a jornalista Alessandra Mello. Muitas vezes é necessário enfrentar governantes poderosos ou ir contra ao que a maioria afirma. Para tanto, ela cita a frase de Millôr Fernandes: “Jornalismo é oposição, o resto é balcão de secos e molhados”.

Essa sede de verdade é preponderante para qualquer jornalista, uma vez que passar informação é algo sério e que deve ser tratado com cuidado. Alessandra recomenda que o jornalista que quer fazer um trabalho de qualidade deve correr atrás da notícia sem medir esforços, sem ter preguiça, sendo curioso e tendo a “sacada” de perceber o que é mais importante num fato ou numa entrevista. Para ela, é essencial que o repórter tenha a “percepção da notícia”.

Alessandra ainda completa: “O importante é conseguir no meio de tanta informação que você pegou ali e saber, isso aqui é o lead da matéria, isso aqui é a notícia. É atrás disso aqui que eu vou correr”. Além do mais, a Jornalista diz que a leitura é essencial. “Ler jornal, ler blogs, para assim, formar um olhar crítico sobre os fatos”, conclui.

Mas a formação do bom jornalista começa bem antes de sua inserção no mercado de trabalho. O jornalista que se formou deve ter aproveitado ao máximo o que os quatro anos na Universidade lhe proporcionaram e absorvido todo o conhecimento que os professores lhe passaram. “Não depende do mercado. O mercado absorve bem os profissionais que aproveitaram o curso”, certifica Luana.

O Professor do Curso de Comunicação da PUC Minas, Jair Rangel concorda com essa questão: “Tem que se aventurar. O que vai fazer diferença de aluno para aluno é isso: quem se aventura mais, quem se esforça mais, quem leu mais, quem estudou outras coisas mais, quem teve pensamento científico, pensamento aberto, pensamento mais socializador e não meramente tentando reproduzir técnica”, observa.

Aliás, a técnica deve ser atrelada ao conhecimento geral, ao “pensamento socializador”. Jair diz que o jornalista não deve pensar que, apenas por ter um bom texto, ele é um bom profissional. “Tem que ter uma formação eclética, generalista, sem a necessidade de aprofundamento em tudo. Tem que saber escutar os setores onde ele transita e entender a lógica desses discursos todos”, conclui.

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* Estudante de Jornalismo da PUC. Estagiária da Imprensa da Assembleia Legislativa de MG.