Hoje apresentamos o ponto de vista de Cristina Dantas, redatora chefe da revista Casa Claudia Luxo, Editora Abril.
“De celulares e sereias
Um celular é tudo o que alguém precisa para se tornar um jornalista. O acidente acontece, o celular registra, transmite e, em segundos, as imagens estão na internet. Fácil, não? Não. Os meios mudaram, as novas ferramentas, como o skype, se tornaram imprescindíveis. Mas um celular, pensando bem, não faz de ninguém um jornalista.
Estudei com mimeógrafo, usei folhas de papel carbono, telex, past-ups, máquinas de escrever e laudas – papeis de péssima qualidade que me causavam alergias chatinhas (perguntem aos seus tios e avós jornalistas, eles saberão o que é tudo isso).
Um dia os computadores chegaram à redação, mais ou menos quando as máquinas fotográficas digitais também fizeram sua estreia. O tempo encurtou, um furo se sustenta por dois segundos antes de ser furado. Já um bom texto, uma matéria bem apurada, com entrevista cara-a-cara ainda pode durar anos, reverberar ao longo do tempo enquanto você se lança em novas jornadas. Uma pauta pode ser explorada de mil maneiras e o bom jornalista sempre descobre a forma mais interessante de cercar um assunto. Um furo sempre será o sonho de qualquer veículo. Uma reportagem bem feita, sob um viés não muito convencional ou mesmo instigante, é um presente para quem lê e para quem escreve. Ainda.
A tecnologia é a realidade que faz todo sentido. Mesmo assim estranhamos quando um idoso se desembaraça com agilidade diante de um caixa eletrônico. A discussão se estende a qualquer setor da vida profissional e doméstica, quase sempre sem que uma conclusão seja requisitada. Quem leu o caderno do New York Times publicado pela Folha de São Paulo em 27 de abril deve ter reparado no ensaio de Matt Ritchel, que transporta a questão da tecnologia para a literatura quando a cobertura wirelles está por toda parte. Ele imagina a cena: “Aqui é Ulisses; alguém pode ver o caminho para Ítaca? Use a rota ‘sem sereias’”.
E você leitor ou leitora deste blog, o que pensa? Apresente a sua opinião para a gente. O debate está aberto.
Abs
Marcelo