Por *Letícia Duarte
Temos um colega na redação de Zero Hora que é considerado uma lenda. Não só porque ele é um dos repórteres mais premiados do Sul do Brasil, com mais de 30 prêmios de Jornalismo, ou porque usa suspensórios – embora essas duas características deem uma boa amostra da personalidade única de Carlos Wagner. Mas também porque, do alto de suas quase três décadas de jornalismo, ele continua sendo um dos repórteres mais entusiasmados pela profissão que já empunhou um bloco – tanto que, enquanto a maioria dos jovens colegas chega esfregando os olhos de manhã, a lenda de cabelos brancos costuma avançar pela Editoria de Geral com sua inseparável mateira** a tiracolo antes das 8h e gritar bem alto: “ah, como eu amo esta m…”(piii)!
Lembrei dele quando soube do tema deste ano do concurso universitáro CNN: Minha Cidade, Minha Vida, uma Atitude, já que é do Wagner uma das melhores frases que já ouvi a respeito dessa relação umbilical do jornalismo com o seu entorno – a rua, a cidade, o Estado.
- Jornalista, as faculdades formam. Repórter, tu te formas na estrada – ensina.
Nesta época em que o jornalismo está cada vez mais instantâneo e asséptico, telefônico e internético, um dos maiores riscos que nossa profissão corre é justamente tirar o pé da rua. É perfeitamente possível apurar uma matéria inteira por telefone, pesquisar no Google informações complementares, entrevistar dois ou três especialistas no assunto e fechar a pauta sem dramas. Só que o perfeitamente possível quase nunca é o suficiente – e o suficiente quase sempre beira a mediocridade. A alma da reportagem não pode ser apreendida pela linha telefônica. Ela vive no Olho da Rua, como bem define o título do indispensável livro de Eliane Brum – outro exemplo de devoção à reportagem e uma das juradas deste concurso (se você ainda não leu o livro, se mexe!).
E, para quem deseja realmente cruzar a linha que define um repórter, é preciso é aprender a treinar o olhar. As pautas estão à espreita em todos os cantos, mas para enxergá-las é preciso desvelar o óbvio – tomar aquela atitude a que o tema deste concurso se refere. A grande matéria pode estar naquele menino que dorme na rua da sua casa, naquela gente que madruga na fila dos postos de saúde, na sofreguidão dos congestionamentos do trânsito, dentro de uma sala de aula. Repórteres são contadores de histórias. É preciso ter sensibilidade para encontrá-las. E para contá-las de um jeito que ninguém fez. É o que a gente chama de “sacada”. Como transformar um problema social em uma pauta? É necessário pensar uma forma diferente de abordá-lo, de uma maneira que se torne útil à sociedade. Que revele além do que todo mundo vê.
Um bom começo é aguçar o olhar ao andar pelas ruas. Observe aqueles personagens anônimos que circulam no seu entorno – pessoas são labirintos, por trás delas sempre há histórias a desvendar. Fique atento a movimentações estranhas. Desconfie de tudo e de todos, sempre. Questione discursos prontos, quem fala bonito demais ou promete mágicas geralmente tem algo a esconder. Troque seu caminho rotineiro de vez em quando, ande por ruas diferentes, ou tente buscar ângulos inusitados ao transitar pelos lugares conhecidos. Troque o carro pelo ônibus ou pelo metrô alguns dias da semana. Sinta a energia que pulsa das esquinas. Converse com pessoas que não fazem parte do seu círculo social. Um desconhecido pode revelar uma história surpreendente, ou dar a pista para você chegar até ela. Aprenda a escutar as lições das ruas, em vez de tentar enquadar os fatos em pré-conceitos.
Não existem fórmulas prontas, só perspicácia, sensibilidade e inquietude. A única certeza é que, para descobrir a cidade, é preciso sujar os pés no barro. Encharcar-se de realidade. E assim um repórter vai nascendo: gestado pelos temas que se propõe a confrontar. A cada nova reportagem, um novo parto.
* Letícia Duarte (@leticiaduarte), 29 anos, repórter da editoria de Geral de Zero Hora, conquistou o prêmios como o Esso de Jornalismo (2002), o Prêmio Iberoamericano pelos Direitos da Infância e da Adolescência da Unicef (2005) e o Embratel (2007), além de integrar o livro 45 Reportagens que Fizeram História, publicado por Zero Hora em 2008.
**pra quem não sabe o que é mateira, é aquela espécie de bolsa para carregar a cuia de chimarrão, o mate e a garrafa térmica, popular no Rio Grande do Sul.