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Como achar aquele personagem que você procura

postado por Concurso CNN em 7 de julho de 2010

Por Clarissa Barreto*


Não existe reportagem sem pessoas, sejam elas uma grávida que espera o primeiro filho, alguém que investe na caderneta de poupança, um marido que troca a mulher pelo futebol durante a Copa do Mundo.

E se o personagem necessário for um “idoso que curte a Lady Gaga” – um pedido real? Ou pior: se em vez de um personagem, você precisa mesmo é falar com um político ou dirigente de uma grande empresa e não tem o telefone dele?

Para – quase – tudo há um jeito a dar. Confira algumas ideias:

- Busque em seu próprio arquivo. Não apague os releases que receber, mesmo os que pareçam estapafúrdios. Arquive todos em uma conta de e-mail gratuita, como o Gmail. Mande os telefones e e-mails que for conseguindo amealhar ao longo do tempo para este e-mail, com palavras-chave. Assim, no dia em que precisar, será bem fácil encontrá-los em uma busca simples.

- Espalhe seu pedido pela internet. Mande e-mails para amigos e assessores de imprensa, não se envergonhe do seu spam – neste caso, quanto mais pessoas souberem do que você precisa, maiores as chances de conseguir. No Twitter, há o perfil @ajudeumreporter, que leva seu drama a 4 mil timelines diferentes, cujos perfis podem retuitar, sucessivamente… As possibilidades são infinitas. Também dá para deixar pedidos em comunidades no Orkut e grupos no Facebook que sejam relacionados à pauta – precisa de alguém que morou na Austrália? Algo me diz que você pode encontrar seu personagem na comunidade “Eu já morei na Austrália”.

- Porém, nem só de internet vive o repórter. Procure lugares relacionados com a sua pauta. Há poucos dias, um colega precisava de um personagem bem específico: uma família que ganhasse pouco e estivesse bem endividada. Parecia fácil. Ele mandou um mail para amigos e conhecidos, que não indicaram ou não conheciam – pouca gente admite estar endividada ou quer indicar alguém nesta situação. A reportagem – para um jornal diário – era para o mesmo dia, e o tempo estava passando. Sugeri uma visitinha ao Serviço de Proteção ao Crédito (SPC). Quem vai lá, certamente está endividado. Além disso, uma conversa olho no olho normalmente rende uma história melhor, quebra o gelo e torna a entrevista mais interessante. Funcionou para ele.

- Seu personagem não é um personagem qualquer. É uma fonte com F maiúsculo: o presidente de uma grande empresa, dirigente de entidade, um político que não está em campanha (se estivesse, aí seria bem fácil). Como achar esta gente? Você já tentou os meios ortodoxos – assessoria de imprensa, o marketing, a secretária e – claro – e-mail e twitter para seus amigos jornalistas, mas nada feito. A primeira ideia é cercá-lo via fontes próximas, um dos diretores, um outro deputado do mesmo partido. Se não funcionar, a dica é tentar a boa e velha lista telefônica. Há uma chance de o nome dele estar lá, com o telefone residencial. Se ele for um espertinho, o telefone está, mas o nome dele não – o número pode estar em nome da mulher, de um filho ou coisa parecida. Se ele tiver um sobrenome diferente, vale fazer uma busca só por ele – aparecerão apenas parentes, que podem ingenuamente indicar o contato. Há também a hipótese de se plantar na frente da residência ou da empresa e esperar. Mas é uma possibilidade arriscada, que pode não dar em nada – ou dar na delegacia.

Veja os depoimentos de dois jornalistas que convivem diariamente com a busca de personagens e como eles preferem trabalhar.

“Adoro catar personagem na rua. Exceto em casos muito específicos, acho muito melhor do que ficar buscando dicas de amigos ou por telefone. Assim, se preciso de alguém para mostrar que a classe C está comprando mais eletrodomésticos, me mando para a casas Bahia, Colombo ou outra loja que me franquear acesso. Se nenhuma liberar, fico na rua, no centro da cidade, em frente aos shoppings. É preciso trabalhar o sorriso na aproximação, escancarar o crachá, porque hoje as pessoas sempre acha que é um golpe, mas, mesmo assim, dá uma certa adrenalina e uma sensação de que a gente ‘realmente está trabalhando, lutando para obter a história’”.

Sebastião Ribeiro, jornalista free-lancer, sócio da Cartola – Agência de Conteúdo.

“Coisa que eu odeio é achar personagens com um perfil definido. Mas em 2004, na Coreia do Sul, eu tinha uma tarefa dessas e estava tranquilo porque achei que seria muito fácil: encontrar um jovem que usasse celular pra saber o que ele fazia com o telefone – na época, celulares cheios de funções eram comuns por lá e os nossos estavam anos atrasados. Fui num shopping em Seul crente que teria a minha história logo, e comecei a abordar adolescentes em inglês. Para meu pavor, ninguém falava o suficiente para desenvolver qualquer ideia. Enquanto o conceito de que na Coreia todo mundo fala inglês evaporava, eu ia ficando sem alternativas. Faltando meia hora, três guris de uns 12 ou 13 anos, uniformizados e com cadernos de escola, vieram falar comigo, em um inglês muito bom:
- Posso falar inglês com o senhor? – perguntou um deles.
- Vocês têm celular? – perguntei de volta.
Tinham recebido como tema de casa ir para a rua e falar inglês com alguém. Como tinham celular, eu tive minha entrevista. E até hoje adoro o sistema educacional coreano.”

Rodrigo Muzell, repórter do jornal Zero Hora.

Você também deve ter seus truques ou histórias. Divida com a gente.

*Jornalista free-lancer, colabora com as revistas Superinteressante, Piauí, jornal O Globo, portal UOL. É sócia da Cartola – Agência de Conteúdo (http://www.cartolaconteudo.com.br/).

Jornalismo. Profissão de alto risco…

postado por Concurso CNN em 16 de abril de 2010

*Do jurado Heitor Reali

Para os outros. É isso mesmo. Não estou falando de profissões perigosas, como bombeiros, policiais, mergulhadores e tantas outras. Para estas, na qual se conhece o risco, me atrevo a dizer que o risco fica menor. Refiro-me àquelas que, a partir de um diagnóstico errado, joga você no beleléu ou daquela outra em que uma sentença mal interpretada leva um inocente para a cucuia. E a de maior risco: o jornalismo. Uma informação incorreta, parcial ou dita com incompetência, pode contribuir para o caos, o pânico, gerar intrigas. Pense bem. Até uma simples resenha, crítica de cinema ou teatro, comentário esportivo, ou mesmo a indicação de um lugar turístico mal elaborada, ou que não carrega a verdade, traz prejuízo de todo o tipo.

Ao jornalista de vocação a base está na busca da verdade. Nada lhe parece; ele define, apura as informações e explica. Ele não “acha”, informa. Pode até se posicionar, mas para isso precisa ter conhecimento. Tem o dever de pesquisar e estudar o assunto. Vou até falar um palavrão: perscrutar. Só vale escrever sobre o que se sabe, viu ou sentiu. É necessário viver para narrar. Podem falar o diabo, mas o new journalism não existe nem mesmo para aqueles a quem imputaram sua origem, os americanos Gay Talese e Lilian Ross. E pior: está virando modinha e gerando equívocos. Descarte. A diferença é que Ross e Talese grudaram no assunto e puderam fazer reportagens preciosas, com tal gama de informações que as fazem beirar a ficção. Mas ainda continua prevalecendo a expressão da realidade sobre a imaginação de quem escreveu. Esta deve estar voltada para a forma do que se diz. Deixe de lado outro clichê que está virando praxe nas reportagens, quando pouco apuradas, e que se encaixa na última frase de um filme de John Ford (“O Homem que Matou o Facínora”): quando a lenda tornou-se fato, publique a lenda. Fique esperto.

Não subjugue nunca a inteligência do leitor, do espectador. Esta regra é fundamental para uma boa reportagem. Vejo o jornalismo pela graça e criatividade no olho arguto do repórter, expressas com inteligência e alavancadas pela ética. Com boa dose de imparcialidade. Não seja “torcedor” de nada e de ninguém, pois a palavra é poderosa. Carlos Alberto di Franco escreveu: “não se fazem matérias direito porque a reportagem se tornou tática demais, confiando em emails, telefones e internet. Não é mais cara a cara”. No bastidor, uma das causas é o borderô apertado de revistas e jornais, e é caro sair à na rua, à cata de boas informações.

Pense duas vezes. Tem certeza de que quer ser jornalista? Não dou conselhos, mas posso dar sugestões que me serviram em minha carreira. Os primeiros passos de um repórter se dão pela leitura. Os textos inspiram. Procure ler o assunto que o interessa, mas dê uma olhada nos livros de George Orwell e Italo Calvino. Mas não deixe de ler “A Honra Perdida de Katarina Blum”, de Heinrich Boll. Assista a “A Embriaguez do Sucesso”, obra-prima de Alexander Mackendrick, que pode ser considerada o melhor filme sobre imprensa de todos os tempos. Outro que precisa ser visto é “A Montanha dos Sete Abutres”, de Billy Wilder. Isso sem contar os documentários produzidos pela jornalista Neide Duarte para a TV Cultura. Preste atenção em um deles: “Quase o Peso de um Passarinho”. Como exemplo de bom jornalismo também elejo o “Profissão Repórter”. E é claro que há muitos outros. Você vai descobrindo. Por fim: veja a beleza que brota até no que é mais árido, e não se limite apenas a registrar a tragédia dos excluídos ou de quem quer que seja. Mas não se esqueça: a linha divisória é escorregadia. Por isso, esta profissão maravilhosa é também a de maior risco.

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* Há quinze anos, Heitor trocou a engenhosidade pela criatividade do jornalismo. Compõe a equipe de revistas como Brasileiros, Almanaque Brasil, Planeta, Bons Fluidos, Continental Multicultural, entre outras, também edita cartilhas ambientais. Este ano, ele é um dos jurados do Concurso Universitário de Jornalismo CNN.

A cidade, as pautas e o repórter: treine seu olhar

postado por Concurso CNN em 6 de abril de 2010

Por *Letícia Duarte

Temos um colega na redação de Zero Hora que é considerado uma lenda. Não só porque ele é um dos repórteres mais premiados do Sul do Brasil, com mais de 30 prêmios de Jornalismo, ou porque usa suspensórios – embora essas duas características deem uma boa amostra da personalidade única de Carlos Wagner. Mas também porque, do alto de suas quase três décadas de jornalismo, ele continua sendo um dos repórteres mais entusiasmados pela profissão que já empunhou um bloco – tanto que, enquanto a maioria dos jovens colegas chega esfregando os olhos de manhã, a lenda de cabelos brancos costuma avançar pela Editoria de Geral com sua inseparável mateira** a tiracolo antes das 8h e gritar bem alto: “ah, como eu amo esta m…”(piii)!

Lembrei dele quando soube do tema deste ano do concurso universitáro CNN: Minha Cidade, Minha Vida, uma Atitude, já que é do Wagner uma das melhores frases que já ouvi a respeito dessa relação umbilical do jornalismo com o seu entorno – a rua, a cidade, o Estado.

- Jornalista, as faculdades formam. Repórter, tu te formas na estrada – ensina.

Nesta época em que o jornalismo está cada vez mais instantâneo e asséptico, telefônico e internético, um dos maiores riscos que nossa profissão corre é justamente tirar o pé da rua. É perfeitamente possível apurar uma matéria inteira por telefone, pesquisar no Google informações complementares, entrevistar dois ou três especialistas no assunto e fechar a pauta sem dramas. Só que o perfeitamente possível quase nunca é o suficiente – e o suficiente quase sempre beira a mediocridade. A alma da reportagem não pode ser apreendida pela linha telefônica. Ela vive no Olho da Rua, como bem define o título do indispensável livro de Eliane Brum – outro exemplo de devoção à reportagem e uma das juradas deste concurso (se você ainda não leu o livro, se mexe!).

E, para quem deseja realmente cruzar a linha que define um repórter, é preciso é aprender a treinar o olhar. As pautas estão à espreita em todos os cantos, mas para enxergá-las é preciso desvelar o óbvio – tomar aquela atitude a que o tema deste concurso se refere. A grande matéria pode estar naquele menino que dorme na rua da sua casa, naquela gente que madruga na fila dos postos de saúde, na sofreguidão dos congestionamentos do trânsito, dentro de uma sala de aula. Repórteres são contadores de histórias. É preciso ter sensibilidade para encontrá-las. E para contá-las de um jeito que ninguém fez. É o que a gente chama de “sacada”. Como transformar um problema social em uma pauta? É necessário pensar uma forma diferente de abordá-lo, de uma maneira que se torne útil à sociedade. Que revele além do que todo mundo vê.

Um bom começo é aguçar o olhar ao andar pelas ruas. Observe aqueles personagens anônimos que circulam no seu entorno – pessoas são labirintos, por trás delas sempre há histórias a desvendar. Fique atento a movimentações estranhas. Desconfie de tudo e de todos, sempre. Questione discursos prontos, quem fala bonito demais ou promete mágicas geralmente tem algo a esconder. Troque seu caminho rotineiro de vez em quando, ande por ruas diferentes, ou tente buscar ângulos inusitados ao transitar pelos lugares conhecidos. Troque o carro pelo ônibus ou pelo metrô alguns dias da semana. Sinta a energia que pulsa das esquinas. Converse com pessoas que não fazem parte do seu círculo social. Um desconhecido pode revelar uma história surpreendente, ou dar a pista para você chegar até ela. Aprenda a escutar as lições das ruas, em vez de tentar enquadar os fatos em pré-conceitos.

Não existem fórmulas prontas, só perspicácia, sensibilidade e inquietude. A única certeza é que, para descobrir a cidade, é preciso sujar os pés no barro. Encharcar-se de realidade. E assim um repórter vai nascendo: gestado pelos temas que se propõe a confrontar. A cada nova reportagem, um novo parto.

* Letícia Duarte (@leticiaduarte), 29 anos, repórter da editoria de Geral de Zero Hora, conquistou o prêmios como o Esso de Jornalismo (2002), o Prêmio Iberoamericano pelos Direitos da Infância e da Adolescência da Unicef (2005) e o Embratel (2007), além de integrar o livro 45 Reportagens que Fizeram História, publicado por Zero Hora em 2008.

**pra quem não sabe o que é mateira, é aquela espécie de bolsa para carregar a cuia de chimarrão, o mate e a garrafa térmica, popular no Rio Grande do Sul.